segunda-feira, 15 de setembro de 2008

PODER VIVER A CIDADE! É O QUE APRENDE O ALUNO DO SUPLETIVO.

Entrevistamos o professor Fernando Frochtengarten, professor de Ciências do Supletivo do Colégio Santa Cruz. Ele fez uma pesquisa para sua tese de Doutorado no Instituto de Psicologia da USP sobre as razões da vinda de alguns alunos da região da Bahia e Minas Gerais para São Paulo, para investigar de que maneira a escolarização os ajuda a participar da sociedade urbana. Para concluir seu estudo, fez uma viagem para as cidades de onde vêm. Sua tese se chama "Caminhando sobre fronteiras: um estudo sobre a escolarização de adultos migrantes" e será publicada no primeiro semestre de 2009.

Em que cidades foi realizado seu estudo?
Realizei esse estudo em três cidades: uma de Minas Gerais, que se chama São João do Paraíso, e duas da Bahia, Belo Campo e Tremedal. Eu as escolhi porque são cidades pequenas, mas de onde o Supletivo recebe muitos alunos. Já faz vinte anos que muitas pessoas destas cidades vêm estudar aqui à noite.
Quantas pessoas foram os sujeitos de sua pesquisa?
Eu comecei esse trabalho com treze alunos aqui da escola, mas depois que eu cheguei lá em suas cidades, acabei encontrando outros alunos que eu não imaginava que fossem de lá. Também encontrei com vários ex-alunos da escola, que retornaram para o lugar onde nasceram depois de completar seus estudos. Então, acabei tendo contato com mais ou menos vinte alunos
Em toda a sua viagem, houve algo que lhe despertou algum sentimento ou sensação? O quê? E qual?
A viagem inteira foi cercada de sentimentos e sensações. A principal coisa é que eu andei apenas em áreas rurais, em fazendas, não estive nas cidades. O ecossistema da região é a caatinga e fui numa época de muita seca. As pessoas que vivem nessas regiões crescem e se formam de uma maneira diferente do que estamos acostumados aqui na cidade. Quase todo mundo ali não foi para a escola, aprendeu as coisas na prática plantando, colhendo... Então o tipo de conhecimento que elas têm lá é muito diferente do que temos aqui. Percebi que a maneira como a gente conhece as coisas, o ler e o escrever, que coisas centrais para nós aqui da cidade foram, e em alguns casos ainda são, coisas menos importantes em alguns lugares do que outros tipos de conhecimento. Por exemplo, alguns alunos de lá me convidaram para ir até a colméia colher mel de abelha. Eu nunca tinha feito isso na vida, mas já tinha ensinado para eles como é a colméia, a rainha, as operárias... Mas na hora de colocar a mão na colméia, foi uma novidade.
A gente só conhece a vida desses alunos do lado de cá, então estar lá e ver de onde vem a experiência de vida deles foi muito emocionante para mim.
O que lhe despertou principal interesse para realizar a viagem?
Quando eu comecei o meu trabalho não sabia que iria viajar, mas quando eu comecei a tentar entender qual é o papel que a escola tem na vida destas pessoas na cidade, eu percebi que só ia entendê-lo se eu fosse para o outro lado, para o lado de onde elas vieram e tentar conhecer melhor quem eram essas pessoas antes de virem para São Paulo.
Explique melhor o que significa dizer que estudou “o valor da escolarização para a participação do trabalhador migrante na sociedade urbana e letrada”.
Nos dias de hoje é muito comum a gente ver cursos para adultos. Em muitos deles, as pessoas só se interessam pelo diploma. Aqui no Santa é diferente, então eu queria tentar entender como essa experiência de vir todos os dias para a escola ajuda esses trabalhadores vindos de outros lugares do Brasil a participar da cidade. Então acho que são duas coisas principais: a primeira é a aproximação dos alunos com práticas sociais de leitura e escrita que a escola propicia. Um trabalhador que aprende a lidar com a leitura e a escrita, e a ter prazer com isso, começa a transitar na cidade de uma outra maneira, freqüentar espaços que ele não freqüentava, lugares que ele nem imaginava ir, como o cinema, teatro. A outra coisa é que a própria escola é um espaço para esses alunos de encontrar pessoas que são semelhantes a eles. A maioria desses alunos passa o dia inteiro trabalhando, longe da família, muitos só dormem na casa do patrão, vivem muito sozinhos, em alguns casos passam o fim-de-semana num quartinho pequeno na casa do patrão. Então, a escola é o lugar de encontrar com gente que é parecida, que tem uma trajetória comum.
Você diz que há uma “tradição migratória” desse grupo de pessoas para São Paulo. O que quer dizer isso?
Isso é uma coisa muito curiosa, porque desde que eu entrei no Santa Cruz eu pergunto para os alunos de onde eles vieram e a resposta mais tradicional é, “perto de Vitória da Conquista”, que é uma cidade grande da Bahia. Só que quando eu começo a insistir, mas perto aonde? “É Tremedal, Belo Campo, São João do Paraíso”, sempre esses nomes apareciam e eu comecei a me perguntar: “Puxa por que tem tanta gente de cidadezinhas que eu nunca ouvi falar e que vêm parar aqui?”
Eu achei que um aluno ia chamando o outro para a escola. Então, um dia eu reuni na sala de aula todos os alunos do curso que eram de Tremedal e, para minha surpresa, muitos não se conheciam, nem sabiam que o outro era de Tremedal.
Então, quando eu fui para lá é que eu entendi porque existe essa tradição migratória. Percebi que lá, quem mora na maioria das casas são os pais de nossos alunos, pessoas com sessenta, setenta anos, e crianças pequenas. Pessoas com vinte e poucos, trinta e poucos, foram embora de lá. Começaram várias correntes, um foi chamando o outro para trabalhar e se tornou um costume. A vida provisória é a daquele lugar e não a daqui. Isso aconteceu porque a base do trabalho dessas famílias, que era o trabalho na lavoura, acabou, então as pessoas ficaram sem alternativas. Essa tradição migratória, que fez tantos conterrâneos se concentrarem no Supletivo, espalhou gente de uma mesma região que nem chegou a se conhecer por lá.
Conte a história da entrada desse grupo no Supletivo.
A entrada desse grupo no Supletivo é muito anterior à minha entrada. Os primeiros migrantes dessa região vieram nos anos cinqüenta para São Paulo. Esse pedaço onde está o Colégio Santa Cruz era um brejo, uma fazenda, só terra, capim, areia, tinha vaca. Foi bem nessa época que o colégio se instalou onde ele está hoje, que pessoas dessa região começaram a vir para a Zona Oeste, porque aqui tinha trabalho, tinha muito lugar para construir. Conheci pais de vários alunos que ajudaram a construir o Condomínio Ilhas do Sul, tinha muito emprego nessa região, e foi por causa do trabalho que essas pessoas vieram das cidadezinhas para este pedaço. Muita gente vinha sem escola e mais tarde acabaram encontrando o Supletivo de uma escola que ficava nesse lugar, que é o Supletivo do Santa Cruz.
Por que essas pessoas se afastaram da escola quando moravam na zona rural?
Muitas nem se afastaram, muitas nem chegaram a conhecer a escola. Em primeiro lugar a principal formação que tinha nesse lugar não era na escola, era o trabalho na roça. Se aprendia a ganhar a vida trabalhando na roça com os pais e irmãos. As escolas eram muito distantes, não tinha condução, além disso, eles precisavam trabalhar. Então, pouco se considerava a necessidade de ir para a escola. Para aqueles que iam, as escolas rurais só tinham até a 4ª série ou, de repente, o professor deixava de comparecer, não ia mais, outras vezes era um prédio com péssimas condições, então, existia muitos motivos para escola não ser uma coisa tão importante. Mas isso está mudando.
O que você quer dizer com “inversão dos lugares de nativos e estrangeiros com os alunos”?
Eu encontro os alunos aqui na escola sempre na seguinte posição: eu sou paulistano, nasci em São Paulo, fiz escola, faculdade, sei ler e escrever. Os alunos têm um monte de outros conhecimentos vindos de outras terras, e quando eu dou aula eles é que estão no “meu mundo”. Eles são estrangeiros na cidade de São Paulo. Quando eu fui para lá, eles estavam na casa deles e eu desconhecia as paisagens, as pessoas, os valores, os costumes... Eu que era o estrangeiro ali.
O que mais te surpreendeu nesse trabalho?
A capacidade que o ser humano tem de conviver com quem é diferente.
Você gostou ou não gostou de algo especifico? O quê?
Eu gostei de tudo nesse trabalho. Mas, para ser bem sincero, a gente não faz isso sem sofrer também, porque não é muito fácil nos aproximar e ficar tão perto de uma realidade que é tão estranha para nós. Ver que também há muito sofrimento na história deles, não poder permanecer no lugar onde nasceram, não poder ficar junto com as outras pessoas de sua família, ficar longe e sem dinheiro para visitá-las nas férias, viver uma vida numa cidade muito difícil e, ainda por cima, ter uma baita coragem de chegar essa hora (depois do trabalho) e ainda vir para a escola e chegar em casa para dormir só um pouquinho, e começar tudo de novo, outra vez.
O que mais gostei foi o acolhimento que tive por parte dos alunos e de suas famílias. Isso não existe aqui na cidade...


Fernanda Silva, Gabriela Ferreira e Maria Carolina Nascimento – 4ª A.

5 comentários:

Anônimo disse...

Olá gente!
Queria agradecer ao Fernanda pela entrevista e parabenisar a nós (eu a Grabriela e a MAria Carolina) pela reportagem; achei que ela ficou ótima!
Comentem para sabermos o que acharam!

Anônimo disse...

Muito boa a idéia!Continuem com idéias assim e também continuem escrevendo assim, pois está muito bom!

Parabéns!

Anônimo disse...

Obrigada Pedro e Gabriel.

Anônimo disse...

Gostei muito, mas eu acho que seria mais legal ainda se houvessem entrevistas com os alunos dessas regiões.
Parabéns, escreveram muito bem!
Beijo para a Fernanda (minha irmã).

Anônimo disse...

Pessoal, o Jornal da 4ª está ficando melhor a cada edição, parabéns! Adorei a matéria com o professor Fernando! Puxa, nem sabia que tinha um colega desenvolvendo trabalho tão importante e bacana. Parabéns para ele também!
Um beijo a todos,
Ellen